II

Era uma vez... uma vez que se tornou para sempre... a inauguração das quatro da tarde... o que lhe chamei em cima as "3:59".
Era uma vez... um povo de pastores num território banhado pelo mediterrâneo e encurralado pelos impérios vizinhos. Um povo de nómadas e semi-nómadas, que acreditavam ser povo eleito de um Deus ao qual não ousavam chamar pelo nome. Estavam rodeados de outros povos, onde proliferavam as divindades e os cultos criados à imagem e semelhança do homem. Criados pela imaginação humana...
Mas havia um povo, um povo que experimentou primeiramente Deus como uma Energia libertadora, o Amor libertador. "Estranho, não é?" Perguntei-te. Sorriste e concordaste. "Rodeados de povos politeístas, invadidos e dominados, eles acreditavam num único Deus. E ainda por cima, num Deus que experimentavam como Amor libertador." Ainda não tinha acabado e já me lançavas o "Porquê?". Ah-ha, estava a começar a prender-te a atenção. E senti o coração a pular. Continuei, então.
Bom, lembraste do Moisés?
Aí pelo século XVII os judeus eram escravos no Egipto. A experiência inicial de Israel com Deus é, justamente, a libertação da escravidão do Egipto. Esta é que é a experiência fundadora. Foi a experiência que os conduziu a Deus. Real, concreta, presente. Hmmmm... como é que te hei-de dizer isto? A fé de Israel não passou da doutrina à vida mas da vida à doutrina! É uma experiência, um encontro que os "desperta". E todo o núcleo da religião judaica era a Aliança com Moisés. Foi esta Energia Libertadora que experimentaram. Bom, e esta aliança nem sempre foi pacífica e histórias não lhe faltam!Vamos viajar sete séculos?
"SETE séculos?! Isso é muita história. Porquê sete séculos?!" - perguntaste.
Eheheh Espera. Já vais perceber porquê! Então, sete séculos à frente viviam em exílio na Babilónia. Ora o que era outrora mel começou a ser muito amargo.
Imagina-te! Imagina que és um judeu do século VI. Estás deportado na Babilónia, e toda a tua família, desde o teu bisavó ou mesmo do teu trisavô que a esperança média de vida daquela época era baixa, viveu lá. Sabes, que em Jerusalém já não há templo. Como tal, já não há festas! Ora, para ti (ou seja para eles), isto significava que politicamente o teu povo está riscado da história. E estás subjugado a um povo cuja religião é florescente. Há festas, procissões imponentes, adoram ídolos, praticam a astrologia.
E tu, que és "doutra terra" acreditas apenas num SÓ Deus, que ainda por cima, não faz aparentemente nada para te libertar dali. Repara, aparentemente!!!
Imagina o escárnio dos babilónios!
"Hum... pois não devia ser fácil!"
Pois não! Surge nessa altura, um homem chamado Isaías que exortava os judeus a não desanimarem. Que diante do Deus em que acreditavam, todos os outros deuses nada valiam.
O Isaías escreveu um livro belíssimo. Poesia em estado puro. Um dia, lê-o. Só para sentires a Força, o Dinamismo, e a Esperança daquelas palavras que se tornam Palavra. Olha, começa assim...
"Consolai, consolai o meu povo,
é o vosso Deus quem o diz.
Falai ao coração de Jerusalém e gritai-lhe:
"Terminou a vossa servidão,
estão perdoados os vossos crimes,
pois já recebeu da mão do SENHOR
o dobro do castigo por todos os seus pecados."
Uma voz grita:
"Preparai no deserto o caminho do SENHOR,
aplanai a estepe uma estrada para o nosso Deus.
Todo o vale seja levantado,
e todas as colinas e montanhas sejam abaixadas,
todos os cumes sejam aplanados,
e todos os terrenos escarpados sejam nivelados!"
Então a glória do SENHOR manifestar-se-à.
e toda a gente a há-de ver ao mesmo tempo.
É o SENHOR quem o declara."
Ao acabar de to dizer arrepiei-me. E fez-se silêncio. Ficaste a olhar para mim quieto. Ficámos assim em silêncio a olhar um para o outro.
"Então, mas ainda há pouco disseste que eles experimentavam-No primeiramente como Libertador? Então, e a criação? Não acreditavam que eles tinham sido criados por Ele? A História não começa pela criação?"
Eheheheh... Não. A História não começa por aí! Nem na tua História pessoal começa por aí! A criação... Ah! a criação... isso é um capítulo muito bonito que vais gostar de ouvir. Ainda, por cima, tu que adoravas História e Filosofia. Que grandes discussões tínhamos aqui há uns treze anos atrás! Era cada uma!!!!
2 comentários:
A primeira vez que alguém me ouviu narrar esta história de Ternura, história de Salvação, disse-me: "Meu Deus, o privilégio que tens de saborear assim o mistério!"
Certamente não é a primeira vez que o narras, mas como é a primeira vez que to escuto, também to digo:
Meu Deus, o privilégio que tens de saborear assim o Mistério!!!
um abraço e (continuação de) boa viagem!
Muito Obrigado, Rui Pedro!
Por ti, e também pelos livros que me emprestaste. Algumas coisas ficaram bem mais claras depois de os ler. E volta-se ao início e descobre-se sempre, e sempre algo que tinha escapado. É uma permanente novidade! Vão aparecer por aqui alguns frutos dessas leituras, principalmente do do antropologia bíblica.
Qualquer dia vou cravar-te mais, pode ser? :)
Um abraço!
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