... Num dia de tempestade, perdida na multidão, vi um rosto que me pareceu o teu. Mas foram apenas, alguns segundos. E lembrei-me das tuas declarações de amor e percebi o quanto tinha sido altiva, arrogante, idiota e estúpida... Voltei à areia do mar, ao jardim e ao metro. Não te vi. Não te ouvi. E fiquei triste. Dia após dia, semana após semana, repetia o trajecto na esperança de te voltar a ouvir. E nada...
...
Mas eu sou sempre teimosa e não desisto assim à primeira. E tu já o sabias. No aconchego do meu quarto escrevi-te uma carta. Era a primeira. Tosca, muito tosca mas, era a primeira.
Voltei à praia, à areia. Escondi a carta por entre as rochas. E fiquei a falar em silêncio com o mar.
Na semana a seguir fui ao jardim. Ao sexto banco. À árvore de folhas vermelhas. E deixei-te outra carta por entre as tábuas. E fiquei a falar com o tempo que tomava conta do jardim.
No metro. No metro era mais complicado deixar-te uma carta. Escrevi-a em tinta invisível para não revelar, assim, os meus segredos. Tu saberias como lê-la. E no meio da multidão senti-me única e especial!
Foram as primeiras três cartas! Muitas outras se seguiram onde te contava tudo. Já te tinha escrito quarenta cartas e nunca me tinhas respondido. Mas alguma coisa, cá dentro, me dizia que as lias todas. Mas não tinha certezas de nada. Quarenta cartas.
Um dia, o carteiro bateu-me à porta. Tinha um telegrama para mim. Dizia simplesmente, “Amo-te”. E nesse momento, chorei de tanta alegria. O carteiro sorria e eu chorava a rir!
Continuei a deixar-te cartas na praia, no jardim e no metro. Uma primavera contínua no coração, de júbilo onde tudo resplandecia e irradiava beleza. Tudo por causa daquele “Amo-te” em telegrama. O tempo passava mas, nunca mo dizias assim de caras, eu não te via, nem te ouvia. E era estranho, porque alguma pessoas aproximavam-se de mim e com os olhos brilhantes sussurravam-me ao ouvido “Amo-te”. E se à primeira vez, que isso aconteceu, eu duvidei, à segunda duvidei menos que era de ti que vinha. Passei a estar muito atenta às pessoas que se cruzavam comigo na vida. De vez em quando via uma ou outra, com sorrisos estampados no rosto e intuía que era por causa de terem cravado no peito um “Amo-te” teu. E contava-lhes a nossa história. Aprendi a esperar quieta mas, em rebuliço permanente para ver se tinhas mais algum recado para mim. E passámos tanto, tanto tempo nisto! Um enamoramento profundo e contínuo. Como era feliz!, e de cada vez que ouvia um "Amo-te" por outro alguém exultava de alegria e agradecia-te em silêncio.
Um dia, sentei-me num jardim mas, já não aquele. De outro que tinha recriado no meu percurso. Era um jardim diferente de todos os outros. Tinha 7 árvores. Seis árvores que ladeavam uma árvore robusta, frondosa, com raízes tão fundas e fortes que alimentavam as outras dispostas em círculo. E sentei-me por entre as raízes, que saíam da terra da árvore central, para me sentir aconchegada.
E desta vez, já com tantos anos de treino, consegui parar mesmo o tempo e ficar verdadeiramente em silêncio. E de repente, de repente, não sei como, senti o teu perfume. Numa absoluta serenidade, fechei os olhos para saborear plenamente aquele momento. Depois... depois, olhei para o lado com uma paz e segurança indescritíveis e... e, lá estavas tu! "Amo-te"...
...de braços abertos, olhar penetrante, a sorrir como sempre...